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dezembro 06, 2004

Conversa de Homem para Homem

Hoje tentei ter uma conversa de Homem para Homem com um amigo meu (ou assim o julgava), amigo esse não de longa data, mas o qual o conheço desde sempre. Não consegui. É impossivel conversar a sério com aquele sujeito. Para já, pô-lo a olhar-nos olhos nos olhos é um caso sério. Depois, quando o conseguimos e começamos a falar a sério, já está ele na risada e na palhaçada, o que faz que quando acabemos a frase já nós estejamos também nos mesmos propósitos. Não é fácil. Quando ele finalmente nos responde algo como "GU GU DA DA BRLA BRLA" (é apenas um exemplo, porque de facto é impossivel transcrever exactamente as suas palavras), chegamos à conclusão que é impossivel chamá-lo à razao. Só as suas expressões (oratórias e faciais) são pura loucura, o que nos faz ficar também puramente loucos (um bocadinho, não demasiado). Quando a conversa séria a que me tinha proposto já tinha descambado para uma criancice pegada, inclusivé comigo a balbuciar algo como "BA BA BU BU GLU GLU", desata-me ele numa choradeira enorme, que só compreendo com o facto de ele ter interpretado mal algumas das minhas palavras. Nisto entra-me a mãe do meu amigo (mãe de meu amigo, minha amiga é) pela sala dentro a perguntar "Que se passa aqui?! Que estão os meninos a fazer?" ao que eu respondo "Estou a ter uma conversa de Homem para Homem com ele.". Ela olha-nos, a ele a berrar e a chorar em cima de mim e com o dedo enfiado pelo meu nariz acima, e a mim deitado no chão da sala e com a chupeta na boca, faz um sorriso amarelo e diz em tom grave "Pois não é isso que me está a parecer! E já agora, faz o favor de, se quiseres ter conversas de Homem para Homem, falar com o José que está lá dentro, pois essa é a Maria. E não é o facto de eles serem gémeos que te iliba da situação, pois é por isso mesmo que os visto com cores diferentes!". Bolas! Ela esqueceu-se é que sou daltónico!

Publicado por Marco às 12:16 AM

dezembro 04, 2004

Não uma, não duas, mas três

As declarações de Santana Lopes ontem à noite, sobre o facto de o Presidente da República lhe ter garantido, não uma, não duas, mas sim três vezes, que não iria dissolver a Assembleia da República estão a fazer-me espécie (espécie de quê? bem... uma espécie de azia). Primeiro, como é que alguém que ficou tão surpreendido, tal como os seus pares de partido, com a decisão do PR, por acharem que não havia razões para tal ter acontecido pergunta por, não uma, não duas, mas três vezes sobre um assunto sobre o qual nem devia estar a ser discutido dentro da "normalidade" em que nos encontrávamos? Uma vez por descargo de consciência tudo bem. Mas por três vezes? Bolas, se calhar o Santana também percebeu que alguma coisa não estava bem e punha em causa a continuidade do seu Governo. Segundo, na reunião em que o PR lhe comunicou a decisão porque é que ele não perguntou nem três, nem duas, mas pelo menos uma vez sobre o facto de ter acabado por tomar essa decisão? Ou terá perguntado? E se o perguntou que reposta é que levou? Se calhar uma menos suave que aquela que vamos conhecer na pròxima sexta-feira.

Publicado por Marco às 11:55 PM

dezembro 01, 2004

O Invasor de Corações

Existem muitos como eu, mas duvido que algum deles leve a sua função tão a sério. Sou um Invasor de Corações. Denominação demasiado simplista e redutora daquilo que realmente faço. Invadir corações é apenas o primeiro passo do processo, e de todos, aquele que exige menos de mim, quer por eles já se encontrarem predispostos a isso, quer por serem facílimos de manipular a ponto de não resistirem durante muito tempo às minhas investidas. A invasão, própriamente dita, é assim a parte corriqueira da coisa, a parte que faço enquanto bocejo. É lá dentro que começa a minha verdadeira obra. É lá dentro que me começo a realizar. É lá dentro que o coração começa a morrer. Quão ridiculos são os coraçõezinhos na altura em que me acolhem! Depois de tantos séculos de actividade ainda me conseguem surpreender com algumas das suas pequenas peculiaridades. Todo o coração é único, tal como único é o seu destino às minhas mãos. Quando me lembro do meu primeiro coração, o único que algum dia me pôs a questionar a minha própria existência, rio com gosto. Oh como eu era ingénuo! Diga-se de passagem que a minha escolha também não foi a mais acertada. Um novato como eu, sem experiência, a trabalhar o coração inocente e incorrupto de uma criança de quatro anos não foi tarefa fácil. Mas após seis anos, dois meses e vinte e três dias, tinha secado o seu coração por completo. Que melhor prova que o facto de no seu funeral, muitos anos mais tarde, apenas terem estado presentes eu, que na realidade não conto para este efeito, o coveiro, Deus e o padre, que acabou por não realizar nenhuma oração visto que considerou que não se justificava por não haver público suficiente, e o que havia ou estava com pressa de ir vêr a bola, o coveiro, ou já estava tão farto de ouvir sempre a mesma lenga-lenga que não se importou que o padre fizesse folga, Deus, sendo que este estava também interessado em vêr a bola, o que pôe em causa a sua omnipresença. Mas a vida não anda nada fácil. Eu que transformava corações a irradiar bondade em autênticas pedras, num espaço de tempo compreendido entre os quatro e os cinco meses, vejo-me agora a trabalhar mais lentamente, a saborear ao máximo cada momento, a fazer render ao máximo o objecto, ou coração se preferirem. E esta mudança deve-se ao facto de o mercado de Invasores de Corações estar a ficar saturado. Eles aparecem não sei bem de onde, aos milhares e milhares, enquanto por outro lado a oferta de corações dignos de serem trabalhados é cada vez mais reduzida. Aliás muitos dos corações, hoje em dia, nem precisam de nós para secarem. Eles já o fazem por si próprios. Acabei agora o meu trabalho com este, que tem como dono a pessoa que vos escreve estas linhas. Acho que fiz um bom trabalho. Depois dir-me-ão o que acham. Estou portanto à procura de um coração que me acolha. Há voluntários?

Publicado por Marco às 01:00 AM