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setembro 23, 2004
Isto não é uma campanha pelo Manuel Alegre...
"Havia a noite, as sombras, as águas negras. Havia o mistério do que se passava no corpo de Cláudia. Menstruação, diziam. Era uma palavra suspeita e proibida, trazia em si algo de terrível e sacrificial.
- É como um corpo estranho no meu próprio corpo, como se de repente eu não fosse eu mas uma espécie de metarmofose.
Assim falou Cláudia, uma noite de Agosto, no paredão da Barra.
- As mulheres estão marcadas
Mas logo acrescentou:
- Marcadas e condenadas pela sua própria salvação
Nem sempre Xavier a compreendia. Tinha por vezes a sensação de que ela falava com palavras do avesso. Como se quisesse dizer o contrário do que dizia. Era uma forma de beleza, as palavras traziam-na e levavam-na. Talvez as sibilas falassem assim, talvez ouvisse vozes. Era uma força obscura, um mistério que havia nela. Olhava o céu e dizia:
- Já cintilámos assim, não somos senão a cinza de uma estrela, amanhã morreremos.
Perguntou a Xavier se ele já tinha ido com outras mulheres. Ele ficou incomodado e não respondeu.
- Tens de dizer, não pode haver segredos entre nós. Não pode haver mentira, a mentira é pecado. Quero saber tudo.
Xavier acabou por dizer que sim, já tinha ido com outras.
- Putas?
Pouco a pouco obrigou-o a falar. Foi quase uma confissão. Queria saber tudo: os gestos, as palavras. Xavier estava confuso, pareceu-lhe que ela gostava. Talvez houvesse uma ponta de ciúme de que ela precisava. Ou talvez não. Talvez ela não tivesse ciúme nem pudor. Era assim. E ele tinha de contar: quantas vezes, com quem, como, os nomes delas e os nomes que lhes dava, se gostavam dele ou se era só pelo dinheiro.
Pareceu-lhe que ficou contente, quase orgulhosa, quando lhe disse que algumas não queriam que pagasse.
- E eu? - perguntou
- Contigo é diferente
- Não sabes
- Sei
- Não sabes, sou capaz de ser como elas, sou capaz de ser pior. Há putas que ficam sempre virgens. Eu não sou puta, por isso é que posso ser pior que puta.
Xavier sentia-se perturbado, quase violentado. Gostava e não gostava. O olhar de Cláudia perdia-se nas águas, nas sombras, na própria noite. Virou-se um pouco, olhou-o de soslaio e disse:
- Talvez eu possa ser como elas, talvez eu possa ser a tua puta.
- Tu és a minha rainha.
E lucilavam estrelas. E todas as sombras a coroavam."
in "A Terceira Rosa" de Manuel Alegre
Publicado por Flash às setembro 23, 2004 11:18 PM